Vários amigos dos meus pais me marcaram como personalidades fortes e inconfundíveis. Uma delas era a tia Silvia, tia apenas pela proximidade com a família.
A tia Silvia tinha um discurso bem humorado, atrás do qual se escondia enquanto atirava à cara de todos o que pensava deles. Humor repentista, enérgico e optimista mas muitas vezes sarcástico ou mordaz. E com o sotaque madeirense, que nunca perdeu mesmo depois dos muitos anos de volta ao continente.
Era daquelas pessoas que parecem não precisar de ninguém, aventureira como poucas, a quem aconteciam as mais dolorosas situações que ela encarava com resignado humor.
Como aqueles ácaros que lhe atacaram o corpo anafadinho. Quis utilizar um aparelho milagroso para se livrar de ácaros, mas eles revoltaram-se e atacaram-na.
Morreu na semana passada, e fez-me pensar que na minha idade começa a acercar-se de mim uma névoa fluida e negra de morte que vai engolindo amores e amizades.
Um pensamento destes não duraria muito tempo ao pé da tia Silvia. Ela dir-me-ia que estou a fazer filme.
