Ontem o meu médico, normalmente tão parco em palavras, muito reservado sem deixar de esclarecer sempre as minhas dúvidas médicas, reparou que eu tenho agora 50 anos. Retorqui de imediato: "- ... mas não me sinto !". A partir daí decorreu uma conversa longa, arrisco a classificá-la como de velhos amigos, em que ele, agora com 62 anos, apoiou a sensação, embora referisse algumas coisas que agora são para ele diferentes.
Para além daquilo que inevitavelmente envelhece no corpo, abandonou alguns planos como o de vir a ter um monte no Alentejo. Não corre para o autocarro, o que lhe fiz notar que se trata de uma questão de atitude ... Canaliza mais energia para projectos de curto prazo como viagens, que lhe dão muito gozo arquitectar.
O que mais estranha é a tal sensação de que já aqui falei, de que tem memórias já tão distantes, e em tão grande quantidade, que quase não parece possível serem dele.
Aprendeu a não se arrepender das suas decisões de vida, pois as alternativas não podem nunca ser certificadas em paralelo. Aprendeu também a aguardar o auxílio do tempo e do esforço para aquilo que numa análise precipitada pode parecer irremediável.
Confessou-me que receava que apenas tivesse mais dez ou quinze anos pela frente, e por isso referi-lhe o caso do meu Pai, que lhe alarga esse prazo para o dobro.
E de saída agradeci-lhe a atenção, para o fazer reparar que tem agora mais disponibilidade para dedicar a uma paciente que o consulta há perto de uns bons 30 anos.