Vai de viagem, provavelmente disfarçado. Tem aquele aspecto meio casual meio cuidado de homem adulto no pico das suas faculdades, cabelo comprido apertado num rabo de cavalo por baixo de um boné que remata o sobretudo escuro. Mas os seus dedos encardidos, em que reparo pela segunda vez esta semana, deixam-me desconfiada.
Vai bem sentado, e na minha opinião está a fingir que lê um livro em inglês. Daqueles livros de páginas poeirentas. Não segura o livro com as páginas direitas, e por isso penso que não pode estar a conseguir ler. Mas prossegue no seu disfarce.
Eu vou de pé, e se é verdade que não distingo mau-cheiro nenhum, aqueles dedos encardidos e unhas sujas, trazem-me à lembrança o asfalto, terra, pós e principalmente lixos.
Procura ter um gesto sofisticado de sacar de uma caneta e escrever qualquer coisa num bilhetinho. Volta a guardar a caneta no bolso do pullover por baixo do sobretudo.
Mas a mim não me parece consistente. Lembra-me um sem-abrigo disfarçado, que toma banho de vez em quando nos lavabos públicos, que comprou, com uma moeda, um livro amarelecido num alfarrabista (o mais barato era aquele em inglês), mas que não consegue disfarçar a errância das mãos e da vida.
No entanto, pensando melhor, também pode ser um artesão de sucesso, de materiais escuros e rudes, que toma banho todos os dias na banheira maxi do quarto de banho no seu penthouse, e que por muitos cremes que utilize à boa moda do moderno homem descomplexado, não consegue desencardir os dedos das essências dos materiais que utiliza. E herdou uma biblioteca cheia de livros antigos em várias línguas.