segunda-feira, 13 de maio de 2013

Caça à borboleta-traça em quentes madrugadas

"Quando acordo pelas cinco da manhã, nestas manhãs amenas, tenho um objectivo definido : caçar borboletas-traça que caem na asneira de voar pela varanda. No fundo faço como com as moscas : agarro-as com as mãos, ponho-as na boca, e levo para a cozinha. 
Aí é uma festa ! A borboleta anda doida, a 'mãe' ouve barulho e vem à cozinha, vai buscar o mata-moscas, e caçamo-la as duas ! 
Depois vou lá fora à procura de mais, mas só costuma haver uma por madrugada."
- a gata Nani -

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A placidez dos velhos

Parece-me que começo agora a descobrir o segredo da placidez da maioria dos velhos. 
Talvez porque  cheguei finalmente à idade adulta. Ao mesmo tempo deixei para trás muitas preocupações com os outros que não sejam os que me estão mais próximos. Aceito agora que não posso agradar a todos, tal como nem todos me agradam.
A placidez dos velhos, parece-me, vem da capacidade de apreciar o canto dos pássaros pela manhã. Vem de conhecer-se antecipadamente a imprevisibilidade do tempo. 
Vem de saber-se despreocupadamente quando se deve regar uma planta.
A placidez dos velhos é o conforto dos netos.
Vem de se abraçar o caminho e de se aceitar o fim do caminho.

terça-feira, 30 de abril de 2013

E dos confins dos tempos ...


Santana - Samba pa ti

Zapava ontem a Zon, passei por um 'Casos Arquivados'. Que série seria mais apropriada para conter uma música da minha adolescência. 
Muitos namoros foram curtidos neste som.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sopinhas

Outra sopinha surpreendente do refeitório Hare Krishna é um consomé fininho de abóbora e gengibre, talvez um pouco de cebola, com um inesperado toque de sumo de limão ou laranja, não tenho a certeza.
Picante. Exótico.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

"25 de Abril sempre"

Um escaravelho gozava, imóvel, muito lampeiro, a sombra do nosso guarda-sol. Esta tarde a praia está quentinha, de fazer lembrar Agosto. Ou, vamos lá, Julho. E o escaravelho entre as nossas cadeiras de praia, que sim 'tá-se bem.
Cheguei a pensar dar-lhe uma migalha do pão que trouxe do almoço para dar aos pardais, mas pensei : "Miuxa, então ? Não se adoptam escaravelhos ! Cai na real ...".
Pelo canto do olho vi uma manchinha escura a aproximar-se, um fininho turbilhão na areia do outro lado. Olhei, e em simultâneo a manchinha imobilizou-se. Disfarça mal, é outro escaravelho.
Atirei-lhe areia mas não se mexeu. A sombra do nosso guarda-sol parece ser muito convidativa.
Subindo veloz pela minha toalha, uma pequeníssima aranha a dar-se ares de tarântula : pernas gordas e arqueadas deslocando-se em modo dominó. 
Assustei-me ! O Cavaleiro Andante veio logo em defesa da sua amada e deu um piparote na desgraçada aranha.

Moral da história : só aqueles que, como o escaravelho, nunca ouviram falar de presos políticos ou de tortura do sono é que gozam com displicência uma sombra amena num quente dia de praia.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Niky, cão-guia

É como vos dizia outro dia : distrair Niky pode ser prejudicial para o seu dono invisual.
Esta manhã, foi o próprio Niky que se distraiu com uma miúda gira ! Atravessou as cancelas do metro com o seu dono ao lado, e desviou-se perigosamente do seu caminho para ir cheirar ou pedir festas a uma adolescente magrinha muito gira que estava parada à espera das amigas ... o dono apercebeu-se do desvio, chamou-o com energia, e Niky lá endireitou a rota para as escadas do metro.
Trabalho duro.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sopinha à moda do refeitório Hare Krishna

É uma experiência muito interessante, uma refeição servida num páteo ajardinado nas traseiras interiores de um prédio antigo de Lisboa. Também tem mesas dentro de casa.
Em alguns dias a sopinha é uma espécie de caldinho ralinho, à base de pouca cenoura, pouca cebola, muitas lentilhas castanhas com casca e uma pitada de sal e, muito importante : uma pitada de cominhos. Tudo desfeito. Já fiz em casa e pus também azeite. Não é nada vulgar.
É servido um menu único por dia, de comida vegetariana : sopa, chá, prato e sobremesa. Pode pedir-se para repetir qualquer dos componentes da refeição.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

"Eu agora gostava de ir para as Caraíbas" disseram aqui na minha sala

Há estradas que se encontram e há estradas paralelas.

Há estradas que começam e não se consegue chegar ao seu fim,
e há estradas que terminam abruptamente.

Há estradas que recomeçam mais à frente depois de um descampado que descansa no caminho.

Há estradas que não levam a lado nenhum,
e há estradas que nos levam onde desejamos chegar.

Há quem nos acompanhe toda a estrada, há quem se junte a nós a meio do caminho.
Há quem nos deixe antes do fim da estrada, e há quem siga uma estrada diferente.

Uma boa estrada sustenta sempre os nossos passos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Domingo de Páscoa

Há certos dias que parecem não estar a contar connosco. 
Vamos desembrulhando o dia e pouco parece acontecer no sentido de crescermos e tornarmo-nos mais felizes.
Sentimos a humidade extrema e o cinzento pesado, dirigem-nos meias-frases desagradáveis e nada parece estar no lugar certo.
Que fazer com esses dias ?
Esquecer ?
Ou antes pedir para ter oportunidade de desembrulhar outro, e rezar para que venha também em nosso nome.

quinta-feira, 28 de março de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Rosas de Sta. Teresinha




Chove de tristeza e de alegria em gotas cheias
A saudade enche o céu de nuvens escuras
As nuvens partilha-as com quem mais lhe quer
Fica o orvalho nas rosas mais puras


sexta-feira, 22 de março de 2013

Neil Diamond


Fernão Capelo Gaivota

Foi neste momento da minha adolescência, em que vi Jonathan Livingstone Seagull e gostei, que me deixei render à evidência de que sou uma pessoa foleira.
Todos diziam que gostar de Neil Diamond era foleiro.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Uma 'coisa' de cerejas

Estava a consultar o site Flagrante Delícia, e a receita de bolo de laranja com morangos fez-me lembrar uma experiência minha, em 2010, com cerejas, que não ficou nada mal, e que postei no site Petiscos.com. A receita é a seguinte : 

Uma tigela de sopa cheia de cerejas descaroçadas inteiras
3 ovos
4 colheres de sopa de açucar
1 yogurte Danone cremoso aroma de morango
4 colheres de sopa de farinha self-raising
1 colher de chá de fermento em pó Royal
1 tarteira de loiça barrada de manteiga Becel e polvilhada de açucar

"Procurei uma receita de tarte de cerejas para não correr o risco de desperdiçar um quilinho a mais de cerejas que comprei ontem. Com base no que encontrei da pesquisa do Google, porque aqui no fórum não encontrei (...) adaptei esta 'coisa' de cerejas. Arrisco em colocá-la aqui porque houve quem aprovasse por razões diversas, principalmente por não ser muito dôce. Mas se quiserem mesmo dôce acho que podem reforçar a dose de açucar. Faltou talvez também uma pitada de sal na massa.
Comecei por besuntar a tarteira com Becel e uma pitada de açucar, e descarocei as cerejas que espalhei  no fundo de maneira a que ficassem uns estreitos intervalos para depois levar a massa.
Bati com uma vara de arames 3 ovos inteiros com 4 colheres de açucar. Juntei o yogurte e bati mais um bocado. No fim a farinha e o fermento. Espalhei a massa na tarteira por entre as cerejas.
Esteve 45 minutos em forno de 180º, para crescer e acastanhar.
Antes de servir passou pelo frigortífico."

terça-feira, 19 de março de 2013

Bailarina


Eu era miúda, e por horas esquecidas no sótão dos meus Pais folheava revistas Paris Match do início dos anos 60. O assassinato de Kennedy, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Ursula Andress, James Dean. A minha Mãe autorizou-me a recortar imagens de que gostasse para forrar cadernos, dossiers,  caixinhas de lápis ou outras coisas assim. Um dos recortes que escolhi era uma foto de uma bailarina antes de entrar em cena. Uma foto tratada com filtros que resultava numa imagem difusa toda em tons de rosa velho. 
Escolhi esse recorte e guardei-o numa pasta de desenhos, com a ideia de que, se algum dia viesse a pintar, aquela seria a minha obra prima.
Guardei o recorte até que por volta dos meus trinta anos deixei de acreditar que algum dia viesse a pintar, e abandonei o meu sonho numa daquelas limpezas de Primavera de que mais tarde ou mais cedo nos arrependemos. Deitei fora o recorte e mais algumas peças da minha história. 
Quis o destino que o meu sonho viesse ao meu encontro em 2006, mas já não tenho o recorte.
Este fim de semana, não sei que espíritos consegui invocar, mas, sentada e completamente entregue à sorte, saiu da minha esferográfica uma imagem muito aproximada daquele recorte da minha adolescência.
Irei fazer pelo menos uma tentativa em óleo sobre tela.

segunda-feira, 18 de março de 2013

quinta-feira, 14 de março de 2013

Reflexões de uma idiota

Estamos mais habituados a criticar fortemente os aspectos negativos de certas situações do que a dar relevância aos seus aspectos positivos.
Falava-se hoje no Papa, e a conversa foi parar aos actos de solidariedade publicitados nos media. Alguém dizia que achava hipócrita a maneira como é feito o aproveitamento mediático das diversas acções de solidariedade.
A mim parece-me mais apropriado que se dê relevância à própria existência de pessoas que empregam o seu tempo a dedicar-se ao bem dos outros, e que se deve reconhecer que a publicitação dessas acções pelos media podem despertar novas vocações, angariar novos voluntários. O resto são efeitos colaterais na maior parte das vezes inevitáveis, devido à própria natureza humana.
O acto isolado e anónimo é sempre mais um, mas há necessidades generalizadas que têm de ser supridas através de campanhas organizadas, e de procedimentos regulares também organizados.
Já temos Papa, Francisco I.
Sejamos positivos.

terça-feira, 12 de março de 2013

Acampamentos na sala

Não sou pessoa com apetite e skills adequados para acampar. Mas faço uma espécie de acampamentos em casa ... Proibi toda a gente de me acordar ao fim das noitadas de televisão que me deixam invariavelmente KO. Optei por ajeitar um amontoado de colchões de espreguiçadeiras no chão da sala, para me preparar para os efeitos analgésicos da luz e dos sons de episódios repetidos de CSI ou Castle, Mentes Criminosas ou Investigação Criminal. 
Fiquei um pouco surpreendida com a indicação daquela médica especialista em questões do sono, que costuma aparecer na televisão. Ela diz que adormecer em frente do televisor não é um comportamento normal ... Deverei preocupar-me ?
De qualquer maneira, quem me acompanha é a gata Nani. Se durmo na sala fica também a dormir na sala enroladinha num sofá.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dona Turtle

Tem andado a rondar-nos, ao fim da tarde, na cozinha. Como já aprendemos, damos-lhe só água porque ela está ainda a hibernar. Ou assim pensávamos : esta semana começou a comer desalmadamente. 
O fim deste Inverno está muito frio, mas aparentemente Dona Turtle guia-se pelo calendário e não pelo termómetro.
Ontem eu estava na cozinha, com um joelho no chão para arrumar umas coisas, e quando dei por ela Dona Turtle estava atrás de mim a cheirar-me o calcanhar. Parece ser tão curiosa como a gata Nani.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mudanças

Sou daquelas pessoas que não procuram muito as mudanças. 
No início da minha carreira profissional, há mais de 20 anos, procurei colocar-me numa área que gostasse, mas depois disso não fiz grandes esforços de mudança. O mundo foi mudando por mim. Afinal, a área de que gostava e que tanto procurei guardou para mim alguns dissabores, para além de algumas das compensações que esperava.
A partir de certa altura as mudanças foram-se sucedendo à minha volta. Fruto de iniciativas de pessoas numa área de trabalho comum, e fruto também de alterações estruturais, metodológicas e tecnológicas que foram introduzidas nas matérias com que lido. Pela minha parte, os meus esforços são de adaptação, mas também de manter uma coerência razoável no desempenho do meu trabalho do dia-a-dia. Faço por não tentar ser o que não sou, e por assumir inteiramente aquilo que sou.
Imutável é o amor que dedico aos que me acompanham, de longe ou de perto, nesta caminhada. É graças aos que me acompanham desinteressadamente que consigo seguir em frente.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Selecção natural

Esta manhã o metro estava anormalmente cheio. De tal forma, que numa das paragens entrou um jovem que descontraidamente apoiou a mão esquerda enluvada no meu ombro. Segurava quase ao pé da minha orelha direita um livro com o título : "Darwin aos tiros". 
Senti logo a natureza mutante da minha resignação àquele papel de apoio para leitura que me foi assim estimulado. Pensei : 'Antes isso do que ser definitivamente erradicada da espécie humana, morta por esmagamento, quem sabe ?'
Se isto tivesse acontecido na minha existência nos anos 80, a resignação seria impensável. Eu era nessa altura um ser absolutamente claustrofóbico e niquento. Hoje em dia, num gesto de adaptação evolutiva, transporto na carteira um frasco de gel de álcool, para me poder socorrer quando os contactos directos se revelam mais asquerosos.
Ao que isto chegou !

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Disfarces

Vai de viagem, provavelmente disfarçado. Tem aquele aspecto meio casual meio cuidado de homem adulto no pico das suas faculdades, cabelo comprido apertado num rabo de cavalo por baixo de um boné que remata o sobretudo escuro. Mas os seus dedos encardidos, em que reparo pela segunda vez esta semana, deixam-me desconfiada.
Vai bem sentado, e na minha opinião está a fingir que lê um livro em inglês. Daqueles livros de páginas poeirentas. Não segura o livro com as páginas direitas, e por isso penso que não pode estar a conseguir ler. Mas prossegue no seu disfarce. 
Eu vou de pé, e se é verdade que não distingo mau-cheiro nenhum, aqueles dedos encardidos e unhas sujas, trazem-me à lembrança o asfalto, terra, pós e principalmente lixos.
Procura ter um gesto sofisticado de sacar de uma caneta e escrever qualquer coisa num bilhetinho. Volta a guardar a caneta no bolso do pullover por baixo do sobretudo.
Mas a mim não me parece consistente. Lembra-me um sem-abrigo disfarçado, que toma banho de vez em quando nos lavabos públicos, que comprou, com uma moeda, um livro amarelecido num alfarrabista (o mais barato era aquele em inglês), mas que não consegue disfarçar a errância das mãos e da vida.
No entanto, pensando melhor, também pode ser um artesão de sucesso, de materiais escuros e rudes, que toma banho todos os dias na banheira maxi do quarto de banho no seu penthouse, e que por muitos cremes que utilize à boa moda do moderno homem descomplexado, não consegue desencardir os dedos das essências dos materiais que utiliza. E herdou uma biblioteca cheia de livros antigos em várias línguas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Niky, cão-guia

Niky passa a viagem de comboio deitado no chão do corredor, ao lado do lugar onde vai sentado o seu dono. É, se não me engano, um labrador de pêlo dourado e expressão dôce. Muitos não resistem e fazem-lhe umas festas. Outros mantêm a distância, respeitando o que já foi transmitido por panfletos distribuídos na rua : os cães-guia vão em trabalho, e não devem ser distraídos da sua missão. Mas ele fica contente com as festas, e não se entusiasma demasiado. Quando se aproxima o destino, Niky levanta-se e abana a cauda, pronto para mais uma etapa de trabalho.