Um escaravelho gozava, imóvel, muito lampeiro, a sombra do nosso guarda-sol. Esta tarde a praia está quentinha, de fazer lembrar Agosto. Ou, vamos lá, Julho. E o escaravelho entre as nossas cadeiras de praia, que sim 'tá-se bem.
Cheguei a pensar dar-lhe uma migalha do pão que trouxe do almoço para dar aos pardais, mas pensei : "Miuxa, então ? Não se adoptam escaravelhos ! Cai na real ...".
Pelo canto do olho vi uma manchinha escura a aproximar-se, um fininho turbilhão na areia do outro lado. Olhei, e em simultâneo a manchinha imobilizou-se. Disfarça mal, é outro escaravelho.
Atirei-lhe areia mas não se mexeu. A sombra do nosso guarda-sol parece ser muito convidativa.
Subindo veloz pela minha toalha, uma pequeníssima aranha a dar-se ares de tarântula : pernas gordas e arqueadas deslocando-se em modo dominó.
Assustei-me ! O Cavaleiro Andante veio logo em defesa da sua amada e deu um piparote na desgraçada aranha.
Moral da história : só aqueles que, como o escaravelho, nunca ouviram falar de presos políticos ou de tortura do sono é que gozam com displicência uma sombra amena num quente dia de praia.