Vinha no comboio a pensar se a verdadeira explicação do empenho da Professora Vera na minha formação como 'criança bailarina' teve a ver com alguma influência social dos meus Pais. Mas na altura não foi isso que senti, e o efeito desse empenho parece-me que foi bem positivo.
Apesar de gordinha, eu 'bailarina criança' não era desajeitada de todo. Aprendia rápidamente os programas, esforçava-me por fazer os movimentos com o máximo rigor. Embora gozada no meio infantil por alguns dos colegas que além de me chamarem gorda viam o ballet clássico como uma coisa pirosa, era respeitada pelas amigas bailarinas e pela Professora Vera, que insistia em dar-me papéis relevantes no 'corpo de bailado' da escola.
Para pianista da sala de aula e dos espectáculos da escola, tinha escolhido uma senhora com um rabo do tamanho de duas cadeiras (tinha uma cadeira especial), e com umas mãos sapudinhas, que interpretava aula após aula peças clássicas de renome, interrompidas e reiniciadas as vezes que fosse preciso, a sinal da Professora Vera com o seu varapau, para as repetições que as 'crianças bailarinas' tinham de fazer.
A Professora Vera esteve do meu lado (atrás da cortina do palco) até na ocasião de uma branca que me deu no início de um 'pas-de-deux' com a minha melhor amiga Janeca, fruto do calafrio de ver tantos pais e mães e outros familiares dos colegas de escola, bem como os próprios colegas, entre os quais alguns gozões, formando um público estranhamente atento e muito vasto em proporção do meu tamanho. Depois de falhados os primeiros movimentos do 'pas-de-deux', apanhei o fio à meada, e estivemos as duas muito certinhas até ao fim, a Janeca e eu. Foi essa parte, da capacidade de recuperação, que a Professora Vera comentou comigo e com quem a quis ouvir, transformando o meu desaire num exemplo de dedicação e resistência !
Reflectindo agora nisso, foi uma das influências que me garantiu alguma resiliência, num mundo em que continuo a ter de lidar com ocasionais dissabores.

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