terça-feira, 23 de outubro de 2012

Escada abaixo, escada acima

Eu descia as longas escadas rolantes do metro do Chiado, tu subias, e olhaste-me. Não engracei nada com o teu bigode. Fiquei a pensar se será da minha idade a razão porque agora só olham para mim na rua  homens do teu género. Bem, na verdade, boa nunca fui (é uma resposta de que me lembro sempre quando me cumprimentam : "Então, estás boa ?" e eu cá para os meus botões "...boa nunca fui ..."). Tinha ido ao Camões comprar tinta branca, que se está a acabar. Aproveitei e - por puro capricho - comprei também um pincel. Não pinto retratos, e muito menos de homens como tu, de bigode arrebitado. Bigode arrebitado usava-se no início do século passado, quando não sei porquê ainda se tinha a ilusão de que o corpo pode melhorar com artifícios. Acho que neste século já pouca gente recorre a complicados artifícios, preferindo o conforto e a naturalidade. Com a tinta branca, não conseguiria retratar o teu bigode, poderia antes, se fosse pessoa de pintar retratos, retratar as barbas branquinhas do Pai Natal. Talvez um dia venha a descer o Chiado e me cruze com o Pai Natal a subir, e ele olhe para mim e me ofereça alguma coisa que me esteja a fazer falta. Sinceramente, tu e o teu bigode não me fazem falta. E eu a ti também não devo fazer falta nenhuma. O olhar de um homem como tu para uma mulher como eu deve ter o mesmo tempo de duração que a memória de um peixe de aquário.

1 comentário:

pessoana disse...

Hahahahah!
Isto é uma coisa entre um gato e uma gata? Podia ser.
Abraço!